Professor usa robótica para transformar a escola e a vida dos estudantes

21/05/25

Educador conta como o desenvolvimento de Competências Digitais foi essencial para evoluir a sua prática pedagógica

Democracia e programação. A princípio, esses dois substantivos não têm nada a ver um com o outro. Porém, unindo criatividade e competências digitais, um educador utilizou os dois conceitos em um mesmo projeto ao realizar uma eleição digital de representantes de turma.

Quem teve essa ideia foi Hailisson Ferreira, professor de Matemática da Escola Municipal Governador Israel Pinheiro, em João Monlevade (MG), e também membro fundador da Sociedade Brasileira de Robótica. “Em 2024, os estudantes viveram uma experiência transformadora ao unir cidadania, tecnologia e protagonismo estudantil. Por meio da iniciativa, eles não só aprenderam sobre democracia e participação, como também programaram seu próprio sistema de votação digital utilizando o Scratch”, aponta.

Durante esse processo, os alunos utilizaram a ferramenta para criar avatares dos candidatos; programaram as funcionalidades do sistema de votação, com botões, contagem de votos e tela de resultado; e testaram os programas, garantindo que tudo funcionasse com justiça e segurança. “E o mais importante: assumiram o papel de cidadãos ativos, compreendendo o valor do voto e da representatividade”, complementa Hailisson.

Além de exercitar lógica de programação, organização e trabalho em equipe, a eleição digital promoveu debates sobre ética, responsabilidade e liderança. Os próprios estudantes organizaram campanhas, criaram discursos e defenderam ideias — tudo isso em um ambiente de respeito e aprendizado. “O resultado? Uma eleição democrática, divertida e 100% digital — feita por e para os alunos.”

Bora Programar: tecnologia para a transformação

A eleição digital faz parte de um projeto ainda maior – o Bora Programar, criado em 2021, que busca capacitar os alunos para compreender, criar e aplicar soluções tecnológicas, desenvolvendo habilidades que vão além do conteúdo técnico, como pensamento crítico, criatividade e colaboração. “Na prática, quero usar a tecnologia como ferramenta para formar cidadãos conscientes, criativos e preparados para transformar o mundo”, afirma o professor, que leciona para os anos finais do Ensino Fundamental.

Hailisson elaborou o projeto a partir de uma inquietação: sendo professor de Matemática em uma escola pública de periferia, como ele poderia tornar a aprendizagem mais significativa para os estudantes, conectando o que é ensinado em sala de aula com a realidade e os desafios enfrentados fora dela?

“Percebi que a tecnologia não é mais apenas uma ferramenta, mas um novo idioma, uma nova forma de se comunicar e transformar o mundo. No entanto, muitos dos meus alunos, apesar de crescerem na era digital, não têm acesso às ferramentas e ao conhecimento necessário para entender ou participar plenamente dessa revolução tecnológica. Muitos deles conhecem os celulares e as redes sociais, mas não sabem que podem ser criadores, e não apenas consumidores, da tecnologia”, reflete.

Durante as suas aulas, o professor também notou que conceitos como lógica, raciocínio estruturado e resolução de problemas eram vistos pelos alunos como distantes de suas vidas. “Eu precisava mostrar o valor prático dessas ideias. Então, a programação surgiu como o elo perfeito entre a Matemática e o mundo digital, uma maneira de tornar essas habilidades concretas, úteis e até mesmo divertidas.”

“O curso que me deu direção”

Em 2020, Hailisson realizou o curso “Introdução ao Pensamento Computacional” – disponível gratuitamente na plataforma Escolas Conectadas –, passo que considera ter sido fundamental para estruturar o Bora Programar. “Naquele momento, ainda estávamos nos adaptando às novas demandas do ensino híbrido e remoto, e eu buscava maneiras de tornar o processo de aprendizagem mais significativo mesmo diante de tantos desafios”, relembra.

“O curso me apresentou conceitos que transformaram minha visão sobre ensino de tecnologia: abstração, decomposição, reconhecimento de padrões e algoritmos. Percebi que o pensamento computacional não era apenas algo técnico, ligado à programação, mas uma forma de pensar e resolver problemas — algo essencial para a vida dos nossos alunos.”

Com essa base conceitual sólida, ele passou a planejar atividades mais intencionais, propondo desafios reais e criando um currículo de robótica e tecnologia alinhado com as competências da BNCC. A formação também reforçou a importância de promover a autonomia do estudante, algo que se tornou um dos pilares do projeto. “O curso não apenas me deu ferramentas; ele me deu direção”, revela.

Em sala de aula, esse direcionamento se consolidou por meio de conteúdos explicativos sobre o que é programação e robótica, mostrando exemplos do mundo real (como carros autônomos e assistentes virtuais). Para botar a mão na massa, o projeto utilizou sites como Code.org, Tynker, Blockly e Scratch. Já plataformas como Google Colab e Trinket ajudaram no aprendizado de Python.

Clima de entusiasmo e curiosidade

Não demorou para essa proposta render frutos, tanto para o docente quanto para os alunos – e consequentemente para a escola. “O projeto trouxe um clima de entusiasmo e curiosidade para o ambiente escolar. Os alunos estavam mais engajados e interessados, o que refletiu em maior participação nas aulas em geral. A apresentação final dos projetos despertou orgulho na comunidade escolar, reforçando o valor do aprendizado prático”, conta Hailisson. 

Para ele, o Bora Programar mostrou que práticas inovadoras têm o poder de transformar não só os estudantes, mas também a cultura e a visão da escola, inspirando um futuro mais promissor para todos os envolvidos. “Alguns alunos começaram a aplicar o que aprenderam fora do projeto, explorando cursos on-line gratuitos e desenvolvendo pequenos projetos em casa. Professores de outras áreas começaram a incorporar elementos do projeto em suas aulas, a integração interdisciplinar foi fortalecida, criando um ambiente mais dinâmico e colaborativo entre os docentes”, observa.

A importância das Competências Digitais docentes

O professor acredita que a elaboração do projeto foi um divisor de águas na sua trajetória docente. Desde o início, ele percebeu que a proposta ia muito além de ensinar robótica ou programação — mas também estimulava a refletir sobre o papel da tecnologia na educação e, principalmente, o seu papel como professor mediador desse processo. “O desenvolvimento das minhas Competências Digitais começou com a curiosidade e a necessidade de acompanhar os alunos. Eles chegavam cheios de perguntas, ideias e energia, e eu percebi que precisava aprender não só a mexer nas ferramentas, mas a integrá-las de forma pedagógica”, compartilha. 

Nesse contexto, o professor se dedicou a aprender a usar plataformas de programação, a explorar sensores e a criar ambientes de aprendizagem mais colaborativos e investigativos. “Isso transformou completamente a minha prática. As aulas se tornaram mais dinâmicas, os alunos mais engajados, e eu mais motivado. Passei a ver a tecnologia não como um fim, mas como um meio poderoso de desenvolver o pensamento crítico, a criatividade, a colaboração e a autonomia dos estudantes”, afirma. 

“Além disso, percebi que, ao desenvolver minhas Competências Digitais, eu também empoderava os alunos. Muitos deles descobriram talentos, vocações e possibilidades que antes pareciam distantes. E isso foi, sem dúvida, o maior impacto: a tecnologia como ponte entre o presente e os sonhos desses jovens”, conclui.

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