‘Investir em uso autoral das tecnologias está entre os maiores desafios da educação’

09/08/24

Em entrevista, a especialista Patrícia Schäfer, que estará na imersão “Ferramentas digitais na prática para professores”, comenta sobre desafios e oportunidades da tecnologia

Ano após ano, os dados divulgados pela pesquisa TIC Educação ajudam a traçar um panorama sobre como educadores brasileiros vêm utilizando as tecnologias digitais em suas práticas. A última edição, lançada na primeira semana de agosto, revelou que mais da metade das escolas brasileiras (54%) de Ensino Fundamental e Médio ofereceram, ao longo de 2023, formação docente - presencial ou à distância - sobre o uso de tecnologias digitais em atividades de ensino e aprendizagem.

De acordo com os dados de 2022, 75% dos professores relataram utilizar tecnologias digitais para realizar aulas expositivas, 72% afirmaram solicitar a realização de exercícios, 78% afirmaram trabalhar com a realização de pesquisas e 45% reportaram o trabalho com jogos educativos com os alunos.

Já em 2021, 65% dos professores haviam participado de formação continuada sobre o uso de tecnologias digitais em atividades de ensino e aprendizagem. As formações a distância, por sua vez, atenderam quase metade (48%) dos educadores que se engajaram em iniciativas de atualização profissional. As pesquisas TIC Kids Online e TIC Educação são desenvolvidas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Elas revelam os hábitos de uso da Internet por crianças e adolescentes com idade entre 9 e 17 anos e mapeiam o acesso às tecnologias de informação e comunicação em escolas públicas e privadas de educação básica.

Contudo, mesmo com o crescimento do uso de ferramentas tecnológicas, menos da metade dos professores de Ensino Fundamental e Médio afirmou solicitar aos estudantes que gravassem vídeos, músicas ou animações (47%) e que produzissem fotos, desenhos, pinturas ou ilustrações com o uso de tecnologias digitais (44%). Se consideradas as respostas dos jovens, as proporções de atividades envolvendo produção de conteúdo digital são ainda menores.

É nesse contexto que, entre os dias 15 e 23 de agosto, será realizada a imersão “Ferramentas digitais na prática para professores”, buscando apoiar os professores a criarem aulas mais atrativas e que engajem ainda mais os estudantes por meio do uso de tecnologias digitais. 

Pesquisadora e especialista pedagógica da plataforma Escolas Conectadas, Patrícia Schäfer participará da imersão em duas oportunidades: na aula ao vivo, em que dará o pontapé inicial da formação online, e em uma aula gravada sobre como potencializar a escrita dos estudantes com ferramentas digitais.

Em entrevista para o blog do Escolas Conectas, Patrícia comentou sobre os resultados da TIC Educação e apontou os principais desafios e oportunidades que envolvem o uso de tecnologias digitais na educação brasileira. Confira a seguir:

1) Como avalia o estágio atual do uso de tecnologias em sala de aula? Como enxerga os avanços e desafios desse processo hoje?

A presença das tecnologias digitais na prática pedagógica dos professores, conforme os resultados expostos pela TIC Educação, tem tido um crescimento relevante. Um desafio é a aposta, ainda tímida, na autoria dos alunos utilizando mídias digitais. 

Ela é destacada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em diferentes âmbitos: no planejamento e na implementação de projetos, na escrita, na resolução de problemas, na programação, na criação artística, na expressão de ideias, hipóteses e sentimentos. 

O que costumamos enfatizar é que o encorajamento à autoria não dispensa a pesquisa e os momentos expositivos; ao contrário, traz sentido para as demais ações. Ao passo que estudantes ganham em formas de expressão – e de representação de processos e fenômenos –, o professor, ao se valer de tecnologias digitais na perspectiva do encorajamento à autoria, vê crescerem os meios de acompanhamento da aprendizagem, de apoio e de intervenção, contando com registros e sistematizações que outras tecnologias não viabilizam. 

Então, um dos nossos maiores desafios é investir em usos cada vez mais autorais das tecnologias, orientados à resolução de problemas e respaldados por investigações consistentes, mesmo em contextos nos quais sabemos que existem dificuldades para professores e alunos.

2) Por que é importante que os professores dominem as principais ferramentas digitais, para além da teoria em si? Como isso pode impactar as suas práticas pedagógicas e apoiar o desenvolvimento de estudantes no mundo atual?

Professores possuem um papel fundamental no apoio ao desenvolvimento dos estudantes na cultura digital. Algo que pode nos tranquilizar, entretanto, é que esta demanda não implica um domínio pleno das tecnologias. Com mudanças tão velozes e a presença cada vez mais marcada da inteligência artificial nas nossas vidas, isso inclusive vai se tornando menos tangível. Importa efetivamente conhecermos possibilidades e limites dos sistemas que suportarão as propostas, sabermos como integrá-los, sabermos a que ajudas recorrer para seguirmos aprendendo – processos que também desejamos ver protagonizados pelos alunos.

Podemos eventualmente sentir que estamos "um passo atrás" dos alunos quando falamos em tecnologias digitais. Contudo, embora crianças e adolescentes estejam familiarizados a usos instrumentais das tecnologias digitais e, frequentemente, mais inteirados da existência de novidades no universo virtual, isso não garante usos críticos e reflexivos do ponto de vista da construção do conhecimento.

Como docentes,  nosso papel nesse panorama alinha-se perfeitamente à quinta competência geral da BNCC: fortalecer entre os estudantes a compreensão, a utilização e a criação de tecnologias com crítica, reflexão e ética para atender a propósitos pessoais e coletivos. Esse enfoque é mantido nas competências específicas das áreas, nas habilidades dos componentes curriculares e nos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento presentes no documento. E se estende aos três eixos que guiam o complemento Computação na Educação Básica, homologado em 2022.

Durante a imersão “Ferramentas digitais na prática para educadores”, teremos de fato uma semana maker: vamos trabalhar propostas pedagógicas a partir de atividades mão na massa, envolvendo diferentes tecnologias digitais. Vamos também adaptar as possibilidades aos múltiplos cenários que convivem na realidade brasileira, como escolas com pequena disponibilidade de dispositivos e conectividade limitada.

3) A imersão segue uma tendência que cresceu muito nos últimos anos, principalmente após a pandemia: as formações docentes realizadas de maneira online/virtual. Quais são os principais aspectos desse tipo de formação que as diferenciam do formato presencial? Quais pontos positivos e desafios dela? Que estratégias fazer para driblar os desafios e potencializar os pontos positivos?

Houve realmente um aumento da demanda de formação docente continuada para o uso das tecnologias digitais entre 2020 e 2021, influenciado pela pandemia e pelas exigências do ensino remoto. O grande alcance e a adaptabilidade à rotina dos professores são pontos altos da modalidade a distância. 

No projeto Escolas Conectadas, temos princípios que buscam garantir a aplicabilidade das aprendizagens e minimizar os impactos da ausência física. A abertura à experimentação, à criação e à reflexão é pressuposto da plataforma, desde a estrutura até os conteúdos. Os cursos enfatizam o desenvolvimento de projetos e atividades colaborativas, assim como investem na variedade de exemplos e situações-problema, que concretizam os conceitos discutidos, colocados em ação para fazer frente aos desafios cotidianos. Priorizamos a adaptabilidade das práticas e o acolhimento de diferentes níveis de apropriação tecnológica dos participantes. Por fim, buscamos assegurar que os docentes encontrem nas formações as mesmas condições defendidas em relação à aprendizagem dos estudantes, por meio de vivências e desafios que possam inspirar o trabalho com seus alunos.

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